O Islã não teme a crítica


Por Girrad Mahmoud Sammour, advogado e presidente da Associação Nacional dos Juristas Islâmicos (ANAJI)

Há um equívoco recorrente no debate público: o de que criticar o extremismo islâmico seria incompatível com o respeito aos muçulmanos. Do ponto de vista do Islã, ocorre exatamente o contrário. A religião não apenas admite essa crítica; ela faz dela um dever sempre que o bem, a justiça e a dignidade humana são violados.

O Alcorão determina que os fiéis sejam testemunhas da justiça, ainda que isso contrarie seus próprios interesses ou os de sua comunidade. Afirma: Sede firmes na justiça, ainda que contra vós mesmos, vossos pais ou parentes” (4:135).

Esses princípios afastam qualquer ideia de lealdade cega ao próprio grupo. Terrorismo, perseguição religiosa, violência contra civis e qualquer crime cometido em nome do Islã devem ser condenados de forma clara e sem relativizações. Não existe fundamento islâmico para silenciar diante da barbárie.

A omissão diante da injustiça nunca foi apresentada como virtude. Ao contrário, denunciar abusos e corrigir desvios faz parte da responsabilidade moral de todo muçulmano.

Mas esse dever não é exclusivo dos muçulmanos. Toda comunidade deve repudiar os abusos cometidos em seu nome, assim como o nacionalismo quando degenera em xenofobia ou qualquer outra forma de intolerância. A coerência exige uma única régua moral para todos.

O problema surge quando atos individuais passam a justificar suspeitas dirigidas a comunidades inteiras.

O que mais preocupa é a facilidade com que crimes praticados em determinados países são usados para convencer a opinião pública de que o Islã os autoriza. A mesma generalização raramente é feita em relação a outras religiões. No Brasil, apesar de a maioria da população ser cristã, ninguém conclui que os crimes cometidos por indivíduos cristãos representam os ensinamentos do cristianismo, algo que muitos líderes religiosos deveriam seguir.

A discussão tampouco pode transformar os direitos humanos em instrumento seletivo. Violações praticadas por governos de maioria muçulmana devem ser denunciadas, assim como aquelas dirigidas contra populações muçulmanas, palestinas ou qualquer outro grupo. A força dos direitos humanos reside precisamente em sua universalidade.

Ao mesmo tempo, criticar extremistas jamais pode servir de pretexto para estigmatizar comunidades inteiras. Seria absurdo responsabilizar todos os cristãos pelos atos de um extremista cristão ou todos os judeus pelos atos de um extremista judeu. O mesmo vale para quase dois bilhões de muçulmanos espalhados pelo mundo.

Criticar o extremismo islâmico não é islamofobia. Islamofobia é transformar uma religião inteira em objeto de suspeita coletiva. Da mesma forma, combater o antissemitismo não impede criticar atos ilícitos praticados por indivíduos ou governos.

O Islã não teme a crítica; teme a injustiça. É esse o compromisso que deveria unir todas as sociedades democráticas: condenar o extremismo sem exceções e rejeitar a tentação de transformar a culpa de alguns na condenação de todos.

Artigo original veiculado na Folha de São Paulo – Link

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