Mensagem de despedida da Presidência da ANAJI
Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso
Que a Paz, Misericórdia e Benção de Deus estejam com todos!
Meus queridos irmãos e irmãs, membros, fundadores, diretores, colaboradores e amigos da ANAJI.
Hoje é um dia de muita emoção para mim. É, ao mesmo tempo, um momento de despedida da Presidência (nove anos) e de celebração de uma história que construímos juntos.
Em 2016, nosso querido Sheikh Jihad me procurou para conversar sobre um projeto: a criação de uma união de juristas muçulmanos. Eu abracei aquela ideia com entusiasmo. Éramos um pequeno grupo, movido muito mais pela coragem e pela fé do que por recursos. E, em 2017, registramos oficialmente a nossa querida ANAJI.
Começamos praticamente do zero: saldo zero na conta, poucos recursos e muita coragem para iniciar os trabalhos.
Tínhamos um site ainda precário, sem a estrutura e a segurança que temos hoje. Não éramos conhecidos. E era natural que parte da comunidade tivesse receio de que a ANAJI fosse apenas mais uma entidade, sem objetivos claros ou sem continuidade.
Mas acreditamos. E seguimos em frente.
E, pouco a pouco, com trabalho, perseverança, coragem e, acima de tudo, com a ajuda de Allah, fomos conquistando nosso espaço.
Chegamos ao Senado Federal, à Câmara, a congressos nacionais e internacionais, à Procuradoria, ao Tribunal Superior Eleitoral, Tribunais de Justiça e até ao Supremo Tribunal Federal. Participamos de debates importantes, construímos pontes, estabelecemos relações institucionais e, principalmente, mostramos que a comunidade muçulmana também possui juristas preparados para defender seus direitos e sua dignidade.
Hoje, a ANAJI é uma associação respeitada, e isso não pertence a uma pessoa. Pertence a todos nós.
Uma das decisões que considero mais importantes desde o início foi termos colocado no estatuto a existência de um Conselheiro Religioso com caráter permanente.
E por quê?
Porque sempre entendemos que a ANAJI não poderia ser apenas uma entidade de juristas. Antes de sermos juristas muçulmanos, somos muçulmanos.
A técnica jurídica é indispensável. O conhecimento das leis é fundamental. Mas existe algo que precisa estar acima de qualquer interesse pessoal: os valores do Islam.
Por isso, o Conselheiro Religioso Sheikh Jihad sempre foi, para nós, um verdadeiro termômetro. Alguém que pudesse nos lembrar dos nossos princípios, fiscalizar para que os valores islâmicos não fossem vendidos, relativizados ou abandonados em nome de interesses particulares.
E digo algo que considero fundamental: não basta estudar Direito. Precisamos estudar o Islam.
Precisamos estudar e estudar cada vez mais a nossa religião.
Porque, se formos representar o Islam em uma universidade, em um tribunal, no Congresso, em um congresso internacional ou diante da imprensa, precisamos estar preparados.
Caso contrário, passamos vergonha não por falta de inteligência, mas por falta de conhecimento.
A nossa maior arma é o conhecimento. Conhecimentojurídicoeconhecimentoreligioso.
Ao longo desses anos, realizamos simpósios, todos os anos, com temas diversos e com a participação de palestrantes de diferentes religiões e áreas do conhecimento. Construímos pontes, promovemos diálogo e mostramos que o Islam não precisa se esconder.
Também tivemos conquistas importantes no campo jurídico, inclusive com decisões e entendimentos que contribuíram para o enfrentamento da islamofobia e para a proteção dos direitos dos muçulmanos.
Mas uma história como essa não é feita apenas de aplausos. Também tivemos críticas.
Algumas foram construtivas, e eu agradeço por elas. Porque quem recebe uma crítica construtiva tem a oportunidade de aprender, corrigir e melhorar.
Outras, infelizmente, foram destrutivas. E, nesses momentos, foi necessária muita paciência.
Talvez a parte mais triste tenham sido algumas fitnas (suspeitas com divisões) que surgiram ao longo do caminho: alegações de que a ANAJI teria dono, quando sempre procurei deixar as portas abertas para novas lideranças.
Nas duas últimas gestões, inclusive, deixei claro que qualquer pessoa que desejasse apresentar uma candidatura poderia fazê-lo e iria apoiar, pois a nossa religião nos manda consultarmos o melhor para o grupo. Nosso querido Sheikh foi testemunha disso.
Também ouvimos que a ANAJI estaria sendo utilizada para promoção política, embora eu sequer seja filiado a partido político e gostaria que outros irmãos assumissem essa missão.
Em outro momento, houve até uma tentativa de criação de uma nova ANAJI.
E tivemos situações em que o próprio papel do nosso Conselheiro Religioso foi desrespeitado, apesar de ele representar justamente aquela proteção institucional e religiosa que entendemos ser essencial desde a fundação.
Mas tudo isso agora é passado.
Não quero sair da Presidência carregando mágoas.
Se em algum momento erramos, pedimos perdão.
Se alguém se sentiu ofendido, prejudicado ou decepcionado por alguma atitude nossa, peço sinceramente desculpas.
Somos humanos. Erramos, e o melhor perante Deus é aquele que se arrepende!
Allah nos adverte no Alcorão:
“E apegai-vos todos, conjuntamente, à corda de Allah, e não vos dividais.” Alcorão 3:103
Não é coincidência que Allah nos ordene a não nos dividirmos. E Allah também diz: “E não disputeis entre vós, para que não fracasseis e percais a vossa força.” Alcorão 8:46
Uma comunidade que vive em disputa perde força. Uma comunidade que transforma irmãos em concorrentes enfraquece sua própria causa.
O Alcorão também nos ensina:
“Não alimenteis entre vós a inveja.”Alcorão4:32
Precisamos aprender a celebrar o sucesso do outro sem enxergá-lo como ameaça. Se um irmão ou uma irmã cresce, isso não significa que nós diminuímos. Se alguém consegue realizar um projeto, representar a comunidade ou alcançar reconhecimento, devemos perguntar: como posso contribuir para que isso beneficie também a Ummah (comunidade)?
Irmãos não precisam concordar em tudo. Podem ter opiniões diferentes, estilos diferentes e até divergências. Mas precisam saber preservar o vínculo, o respeito e o objetivo maior.
Precisamos sair das bolhas.Não podemos construir uma comunidade forte se cada grupo trabalha apenas para si, se cada liderança teme o crescimento da outra ou se o sucesso de um é motivo de desconforto para outro.
O Islã não precisa de mais competição por protagonismo. Precisa de mais cooperação, sinceridade e união.
Mas posso afirmar, diante de Allah, que a intenção sempre foi sincera: agradar a Allah, servir à comunidade e defender nossos irmãos e nossas irmãs.
E hoje, quando olho para trás, vejo que não construímos apenas uma associação. Construímos uma história.
E essa história só foi possível graças a muitas pessoas.
Agradeço, antes de tudo, a Allah, por ter me concedido a oportunidade de servir.
Agradeço profundamente ao nosso querido Sheikh, pela confiança, pela orientação e pela oportunidade que me foi dada desde 2016.
Agradeço a todos os membros da ANAJI.
Agradeço especialmente aos fundadores, que acreditaram em comigo quando ainda não havia praticamente nada.
Agradeço aos meus antigos diretores, aos colaboradores e à atual diretoria, que dividiram comigo responsabilidades, dificuldades e conquistas.
E agradeço àqueles colaboradores sinceros que, muitas vezes de forma silenciosa, contribuíram para que hoje possamos entregar uma ANAJI muito mais estruturada.
E quero fazer um agradecimento muito especial à minha família, à minha esposa e aos meus filhos.
Foram muitos momentos de ausência. Muitas vezes precisei estar longe, participar de reuniões, viagens, eventos, compromissos e assumir responsabilidades que exigiram tempo que poderia ter sido dedicado a vocês.
Se hoje conseguimos chegar até aqui, vocês também fazem parte dessa história.
Obrigado pela compreensão, pelo apoio e, principalmente, pela paciência diante de tantas ausências que foram necessárias para esse propósito maior.
Que Allah recompense vocês por cada momento de paciência, por cada renúncia e por todo apoio que me deram. Que Allah abençoe minha esposa e meus filhos e recompense cada um de vocês da melhor maneira.
Hoje deixamos, inclusive, uma estrutura física e institucional muito diferente daquela que encontramos no início: fruto do esforço conjunto de muitas pessoas.
Mas não deixamos apenas uma sala na Faria Lima.
Deixamos uma missão.
A missão de defender direitos.
A missão de combater a islamofobia.
A missão de representar a comunidade. A missão de construir pontes.
E, acima de tudo, a missão de divulgar o Islam com conhecimento, sabedoria e dignidade. Hoje encerro um ciclo na Presidência, mas não encerro a minha missão.
Continuarei sendo um soldado dessa causa. Continuarei divulgando o Islam.
Continuarei defendendo nossos irmãos e nossas irmãs.
E, dentro das minhas possibilidades, continuarei à disposição da ANAJI.
À nova Diretoria, desejo sinceramente que Allah abençoe cada um de vocês.
Que Allah dê sabedoria nas decisões, paciência diante das dificuldades, união diante das divergências e sinceridade em cada ato.
Que vocês nunca se esqueçam de que a ANAJI não pertence a uma pessoa, a uma diretoria ou a uma gestão.
A ANAJI pertence a uma missão.
E essa missão é maior do que todos nós.
Que Allah preserve a nossa união, proteja a nossa comunidade, fortaleça os nossos irmãos e irmãs e permita que a ANAJI continue sendo um instrumento de justiça, conhecimento e defesa dos valores do Islam.
E se um dia alguém perguntar o que deixamos depois de tantos anos, espero que a resposta seja simples:
Deixamos uma instituição mais forte, uma comunidade mais segura e uma geração de juristas muçulmanos mais preparada para defender o Islam e seus irmãos.
Que Allah aceite de nós aquilo que fizemos de bom, perdoe nossos erros e permita que aquilo que construímos continue produzindo frutos depois de nós.
Jazakumullahu khayran, que Deus recompense a todos!
GIRRAD MAHMOUD SAMMOUR
CO-FUNDADOR E EX-PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE JURISTAS ISLÂMICOS-ANAJI



